até aqui adormecida
debaixo de uma terra
que me foi jogada em cima
hoje sou a paz que não me foi permitido ser
Tenho estado a ver as pessoas fazerem levantamentos do ano que passou. Também tenho que fazer o meu e sobretudo os planos para o que aí vem, pois se não agarrar o destino pelas mãos agarra-me ele a mim. E precisamente porque pela primeira vez agarrei o ano que passou pelos colarinhos, tive talvez o melhor ano da minha vida. Isto enquanto o país mergulhava no caos e grande parte das pessoas decidiu ir com ele, como é normal, pois confundem-se com Portugal. Eu confundo-me com "o rio da minha aldeia", com as serras, as rebentações das ondas, o sol e a chuva; mas não me confundo com a industrialização sem motivo, com o betão armado, com a desigualdade social, os sem-abrigo, os ricos, os animais assassinados. Eu não dou à troika o direito de me afundar, porque não lhe dei o direito de entrar na minha vida. Nunca votei nos que governam ou governaram; nunca defendi o ódio, a concorrência, o egoísmo, a violência. Então, pela primeira vez na vida percebi que tenho que seguir um caminho longe deles fazendo o que há de bom para ser feito e não colaborando com esta sociedade. Não acredito que haja salvação para ela, mas se houver, não será seguramente jogando o seu jogo, pois as suas regras têm milhares de anos e faliram sempre. Só não sabe quem não quer saber.