Às vezes tenho sorrisos de orelha a orelha, outras vontade de ser só eu Tenho dias que não me calo E outros em que só me apetece calar Tenho dias que não tenho tempo para viver tudo E outros em que não me apetece viver
Tenho dias em que as pessoas são todas boas E outros em que não há pessoas boas
E cada dia é verdadeiro
Cansa-me tanta ambiguidade nos dias
Cansa-me tanto, que às vezes me apetece não ter dias
M dizia-me entre lágrimas: “Eu só quero poder ser quem sou.”
É isto o que mais nos aflige: todo o nosso a ser a pedir para o deixarem ser o que na génese é e a inibição do Ser sempre presente, muitas vezes verdadeira proibição.
Nascemos e crescemos a sermos limitados, e assim continuamos a viver. Toda a gente sabe como “deveríamos” comportar-nos, o que “devíamos” fazer, o que “temos” de aprender. Toda a gente sabe tudo de nós: que somos burros, ignorantes, intrometidos, que falamos pouco, que falamos demais, que rimos muito alto, que rimos muito baixo, que não rimos de todo… (E nós, não só compramos isto tudo, como ainda replicamos infinitamente cá para dentro.)
O estranho é que cada um sabe coisas diferentes; quer, pede e manda coisas diferentes. E muitos desses ora sabem uma coisa, ora sabem o contrário.
Se eu não posso ser quem sou, sou quem? Se tu não podes ser quem és, és quem? O quê? Quem tem o direito de te dizer o que deves ser?
Tenho para mim que quem me diz o que eu devo ser e fa…
Aprendi com mulheres a olhar para a Lua e a saber que sou como ela: tenho os meus ciclos de 28 dias, ora em expansão, culminando na grande festa da Lua Cheia, ora em retracção até à Lua Nova, onde um velho ciclo se enterra e outro, novo, nasce.
Que a Lua Nova é tempo de semear, semear renascimento, intenções.
Hoje, Lua Nova em Virgem, eu semeio-me quase nua.
Deixei finalmente para trás os restos de falripas tingidas de castanho e dei espaço total ao meu cabelo verdadeiro.
O rosto continua imaculado.
Sempre tive esta coisa de gostar do que é natural e simples. Pé descalço ou com sapatos-luva, roupa confortável, tal como a que trazemos ao nascer; cabelos livres, tudo livre.
Consegui resistir a muito, mas não a tudo, e os últimos anos trouxeram-me de cabelos coloridos, envergonhada pela branquidão que ganhava cada vez mais espaço.
Grata a quem fez da cor natural moda e assim me devolveu o meu próprio cabelo.
Que disparate esse de às vezes me lembrar de querer parecer o que não sou. Como…
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