Presto-te homenagem, pai
Hoje presto-te homenagem. Presto-te a homenagem que em vida nunca fui capaz porque não consegui ver. Porque não conseguia ver que para lá de um rosto normalmente ausente, triste, cansado, duro havia uma vida não vivida na sua plenitude, havia sonhos não realizados ou até nem sequer sonhados. Quando finalmente ficaste velho e sem possibilidade de trabalhar, então pudeste dar ao mundo um cheirinho de quem na essência eras: cheio de alegria, força, coragem, vontade ilimitada de viver em toda a sua pujança. Onde houvesse festa lá estavas a animar com as tuas canções, as tuas danças. Foi preciso adoeceres, daquela doença que fala de ressentimentos guardados no corpo e na alma, que é o cancro, para eu te conhecer. E valeu a pena. Esses dois anos valeram por todos os outros. Afinal gostavas de mim, consideravas-me, respeitavas-me, acreditavas em mim. E que força! Cada vez que saías da cama do hospital, sem massa muscular, só pele e osso, dizias: - Isto agora são três meses para ganhar...