segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Prazer

Èxtase da beata Ludovica, Bernini
Em que estado está o meu coração quando tenho prazer?
Em sorriso profundo! Ele e todo o corpo.
Não preciso de nada nem de ninguém. Basta-me eu própria conectada comigo, atenção nas células e aí está ele, umas vezes subtil, outras de risos imensos.
Uma brisa, gotas de água, o toque de uma pena, o escorrer de dedos amorosos, o encontro de um corpo na mesma sintonia podem obviamente ampliá-lo e ampliam-no, mas só o ampliam porque eu tenho capacidade de o sentir, estou aberta a ele e aberta às várias nuances que pode apresentar.
E se o prazer me dá um sorriso no corpo todo, às vezes sonoras gargalhadas, poderá tal prazer ser mau? Será legítimo, inteligente, de bom-senso proibir ou de alguma forma castrar este prazer?
Grata sou a todos os que ajudam ao resgate do prazer. Resgate de termos prazer pelo simples facto de estarmos vivos, de nos permitirmos ser o que biologicamente somos, por nos permitirmos cumprir a matriz divina com que fomos criados em vez de negarmos a obra do Criador, seja o Criador o que for, por termos "tesão de viver".
Grata sou, e muito, também, por poder ajudar a resgatar o prazer (a quem se aproxima de mim e o solicita de alguma forma), e por ajudar a resgatar toda a inteireza humana, a quem quer ser verdade.
Definitivamente amo ser feliz e estar em prazer.

(Reflexão no final do Workshop de Biodanza de Vasco Fretes "A Magia do Prazer")

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Amor incondicional

Sou pelo amor incondicional, é o único em que acredito. Não gosto quando me vêm cobrar o que me deram, aliás, percebo que não me deram, venderam. Mas também eu, se estiver bem atenta, posso perceber expectativas de retorno em muitas das doações que faço. 

Não acredito neste comércio, tenha origem nos outros ou em mim. Só acredito no amor que não pede nada em troca. É esse que traz de facto recompensas, muito maiores que as dádivas; o outro traz frustrações entre, com certeza, várias outras perdas.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Não prives os outros de ti

Não prives os outros da tua grandeza.
Oferece-lhes o teu sorriso, delicioso
Esse olhar suave e terno
O teu sentido de humor sem fim
As gargalhadas
Os abraços aconchegantes
O peito.
Não prives os outros – nem a ti – da tua grandiosidade.

Podes deixar em casa a raiva, o medo, as birras, os queixumes, o mau-humor, o desamor,
Mas traz sempre contigo essa imensa grandiosidade.

Sim, tu és enorme, imenso, incrível.

Olha à tua volta.
Abre o peito.
Recebe o que vês só com o coração.

Vês alguém belo?
És tu.
Doce?
És tu.
Inteligente?
És tu.
Bem-disposto? Acolhedor? Atraente? Sexy? Divertido?
Sim, és tu!

Apetece-te abraçar alguém? Cortejar? Fazer amor? Ir ao cinema? Ao teatro? Passear á beira-não-interessa o quê?
É contigo que queres fazer tudo isso.
E sabes porquê?
Porque és imenso.

No coração, na barriga, nos braços, nas pernas, no rosto, no sorriso és imenso.

Se não acreditas experimenta dia após dia treinar calar o chat habitual.
Experimenta passear na natureza
Fazer retiros de silêncio
Visitar crianças abandonadas
Voar com os pássaros.
Experimenta dançar sem álcool, nem fumos, nem conversas forçadas.
Só dançar.

Experimenta ir tirando as cortinas que te vedam os olhos exteriores e sobretudo os interiores.
E verás.
Ver-te-ás.

Não, não prives os outros de ti. Nem a ti.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Xarope para tudo

O meu amado está doente vou preparar-lhe um xarope para tudo.

Abro as mãos, os braços vão atrás, aqueço o coração e peço que lhe envie sem parar amor enroscador, quente, tão saboroso.

Abro as mãos, os braços vão atrás, aconchega-se a barriga para receber a barriga do meu amado.

Páro sentindo os nossos ventres quentes, salivantes, enleando-se como se enleia o sangue nas veias.

Peço ao peito que receba o seu, mas são os mamilos que primeiro o fazem; depois cada mama, inteira, finalmente o peito e atrás dele todo o coração.

Os rostos tocam-se, tal como as coxas. As pernas entrelaçam-se. O sexo cresce-me, humedecido. O dele cresce orvalhando gotas que dizem ao meu: Vem, quero-te.

Vai durar toda a noite o vibrar deste xarope. Toda a noite vai durar o tratamento.

Hão-de ouvir-se gritos, murmúrios, gargalhadas, choros, silêncios.

Será o tratamento de tudo.


Amanhã ele acordará recuperado e se voltarmos a fechar as janelas é porque necessitámos de repetir a dose. Não para nos tratarmos de novo, mas porque queremos tratar-nos sempre.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

De sorriso ao peito

Estou de sorriso ao peito.
Porquê?
Não sei.
Será porque estou viva?
Porque tenho pessoas que me amam?
Porque a cada segundo, minuto, hora, sei lá, alguém me oferece qualquer coisa?
Um sorriso, palavras amorosas, um ensinamento, uma flor, um diamante?!

Estou de sorriso ao peito.
E muito mais importante que saber os motivos é notar que estou,
é notar-me,
porque notar-me significa viver,
aproveitar este preciso, precioso e irrepetível momento.

Grata por cada instante em que sou capaz de estar presente, de viver.
Grata pelos sorrisos ao peito.
Grata pelas dádivas intermináveis que recebo a cada instante.
Grata por ser capaz de sair do que já não me serve.

Grata por ser capaz de ser.

domingo, 25 de janeiro de 2015

A caminho das estrelas

É da raiva que te escrevo,
Da incrível loucura que não dispenso,
Das vísceras,
Do coração que morde os pés e as pernas,
Me instiga para a frente,
Me mostra o fogo que me empurra, me não deixa desistir,
Me rodopia em chamas,
Me uiva,
Ri.

É do grito de vitória que te escrevo e digo
“PARTI. EU PARTI.”
Não fico mais contigo,
Não consigo,
És muito pequena.
Não caibo no teu espaço,
Nessa casca de ovo,
Rua da Betesga.
Eu, imenso Rossio unido ao Terreiro do Paço, sou Cacilhas ainda, Cristo Rei.
Como poderia caber nessa rua?

Parto. Eu parto.
Aceno-te.
Peço-te que não fiques triste, não desistas, não penses que morreste.
Só enlouqueceste perdida, paupérrima.
Mas a cura existe.
A cura existe sempre.

Parto.
Continuo em direcção às mães estrelas, eu que sou tão terra, tão água, tão sol, tão ar.
Volto para me unir de novo a esse pó que reside no céu.

Volto novamente, imensamente, infinitamente, eu.