Eu tenho em mim todas as cores do mundo (e "todos os sonhos", como o poeta). Tenho em mim todos os sexos ou géneros, ou o que forem as infinitas nuances desta coisa insondável de ser pessoa. Tenho em mim todos os animais, todas as plantas, mares, rios, glaciares, montanhas. Tenho em mim todas as dores e todas as alegrias. E também tenho em mim todas as coisas horríveis do ser humano e do universo todo. Por isso reconheço-me agredida e agressora. Às vezes agrido sem saber, outras dou por isso mas há algo mais forte que me leva. O mesmo com o amor. Percebo por vezes que dou amor em níveis muito superiores ao que posso controlar. O mesmo com tudo. São reconhecimentos que os já muitos cabelos brancos e a capacidade de observação que tenho vindo a treinar me vão mostrando. Boquiaberta amiúde com as descobertas. Por isso me tento controlar quando me apetece sair a correr a condenar os outros (raramente me tento controlar nos aplausos). Não, nada é tão simples quanto parece, ...
No aniversário do meu filho, gosto de lhe mandar fotos de tempos que ele não lembra e às vezes nem eu, como é o caso desta. Gostávamos os dois de brincar aos circos e de fazer equilibrismo. As outras pessoas assustadas costumavam dizer: - Não faças isso, o menino cai. Mas o menino nunca caiu. Olhando agora esta foto, penso que talvez ela explique como o meu filho é corajoso. Aqui tinha um pouco menos de dois anos e estava num equilíbrio perfeito, sustido pela mãe. Fomos sempre dois cúmplices. - Era como se eu lhe dissesse: voa, voa, eu estou aqui, nada te pode acontecer. Ainda não nadava mas já saltava para dentro de piscinas ou de rios, sem pé. Claro que ia de braçadeiras, ou eu ou algum amigo estava lá para o agarrar. Eram voos seguros, mas eram voos. Até que chegou o dia de voar sozinho e nunca mais parou. Outro dia falámos sobre o medo e ele disse-me que em geral os amigos se escandalizam quando lhes conta as nossas peripécias. - Porquê? – perguntei eu....
Hoje presto-te homenagem. Presto-te a homenagem que em vida nunca fui capaz porque não consegui ver. Porque não conseguia ver que para lá de um rosto normalmente ausente, triste, cansado, duro havia uma vida não vivida na sua plenitude, havia sonhos não realizados ou até nem sequer sonhados. Quando finalmente ficaste velho e sem possibilidade de trabalhar, então pudeste dar ao mundo um cheirinho de quem na essência eras: cheio de alegria, força, coragem, vontade ilimitada de viver em toda a sua pujança. Onde houvesse festa lá estavas a animar com as tuas canções, as tuas danças. Foi preciso adoeceres, daquela doença que fala de ressentimentos guardados no corpo e na alma, que é o cancro, para eu te conhecer. E valeu a pena. Esses dois anos valeram por todos os outros. Afinal gostavas de mim, consideravas-me, respeitavas-me, acreditavas em mim. E que força! Cada vez que saías da cama do hospital, sem massa muscular, só pele e osso, dizias: - Isto agora são três meses para ganhar...
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